01 julho 2015

Ilhéus: a terra do cacau e do chocolate

Ilhéus, litoral sul da Bahia. Terra de romances ardentes, cenário de poesia, de inspirações para Jorge Amado e sua Gabriela Cravo e Canela. Mas a Ilhéus que eu queria e conheci foi a Ilhéus do cacau, do fruto de ouro que brota dos troncos das árvores da Mata Atlântica. E como acredito que viajar é realizar sonhos, posso dizer que essa viagem foi especialmente inesquecível.

Radiante de felicidade!

A última vez que eu havia pisado por ali tinha sido em 1989, ainda criança, e apenas de passagem durante uma viagem de carro que se estendeu até o Recife. Lembro que nos hospedamos em Itabuna, cidade de nome engraçado para uma criança de 8 anos e, criativa que era, logo inventei um apelido para ela. O tempo passou e só voltei à Bahia em uma passagem relâmpago em 2008.

Ilhéus estava sempre nos meus planos, não só turisticamente falando. Para quem trabalha com chocolates como eu, e é apaixonada pelo seu universo desde a origem, e não somente por receitas, visitar Ilhéus tinha um sabor muito especial. E lá tem o Festival Internacional do Chocolate e Cacau, um evento anual que eu já namorava há anos, mas que sempre ficava para "uma próxima vez". Só que esse ano o vento soprou a favor e eu arrumei minhas malas correndo!

O cansaço era proporcional à felicidade, mas quem liga?

Introduzido na região no final do século XVII, o cacau chegou a significar 100% da economia de Ilhéus. No final da década de 1980, um fungo chamado vassoura-de-bruxa exterminou praticamente todas as plantações de cacau, e o impacto na economia local foi avassalador. O cacau era a única fonte de renda de dezenas de famílias e poderosos coronéis, e ouvi dizer que teve gente que cometeu suicídio, tamanho o desespero de ver toda fonte de seu sustento ir embora com a praga. Nunca descobriram como a vassoura foi parar ali, mas houve indícios de que foi algo premeditado e trazido da Amazônia.

O cacau pequeno e escuro não conseguiu escapar da vassoura-de-bruxa

O cacaueiro leva de 6 a 8 anos para começar a dar os primeiros frutos, então pode-se imaginar a demora para recomeçar tudo do zero, além de ainda tentar entender o que de fato havia acontecido. Hoje, retomando o fôlego lentamente, o cacau representa 52% da economia de Ilhéus. Eu já tinha lido bastante sobre o assunto, conhecido algumas pessoas e conversado a respeito, mas conhecer de perto toda essa história me deu uma outra dimensão dos fatos. Entenda em números: de 300 mil toneladas de cacau/ano antes da vassoura-de-bruxa, a produção caiu para 98 mil toneladas em 1998.
Realizando um sonho e me energizando

A luta para combater a vassoura perdura até hoje e, embora a praga esteja controlada, não se consegue exterminá-la, infelizmente. A CEPLAC - Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira - desempenha um papel importantíssimo no combate à vassoura, e se você se interessa pelo assunto, eu recomendo demais a visita.

O ouro da Mata Atlântica

E como dizem que a gente cresce é na dificuldade, Ilhéus (e toda a região cacaueira) merece o mérito. Saí de lá realmente impressionada com o que vi. Produtores de cacau engajados, informados, modernizados e premiados internacionalmente. João Tavares, cujo trabalho eu admiro demais e de quem eu sou fã, foi um dos cacauicultores da região que mostrou para o mundo a qualidade do nosso cacau: ganhou por duas vezes (2010 e 2011) no Salon du Chocolat de Paris o prêmio "Cocoa of Excellence" nas categorias cacau/chocolate e frutas secas, respectivamente, para a América do Sul.


* Toda minha gratidão ao João Tavares por me enviar as fotos dos prêmios e autorizar a publicação aqui!

Já imaginou depois de uma praga avassaladora receber um título de cacau de excelência? É pra encher de orgulho e nunca mais importar uma amêndoa sequer! :) E eu tenho a honra de trabalhar com o chocolate feito a partir das amêndoas de cacau da fazenda dele - o Harald Unique 63% cacau.

> Leia mais sobre os prêmios de 2010 e  2011.
>> Visite o site e conheça mais sobre o lindo trabalho do João Tavares - clique aqui

É sempre bom conhecer pessoalmente quem admiramos | Eu e João Tavares no Fórum do Cacau e Chocolate

O que também me impressionou foi a força do movimento dos produtores de cacau para produzirem o seu próprio chocolate, um processo que se chama "bean to bar", da amêndoa (de cacau) à barra, da árvore ao tablete. Ou seja, cacauicultores da região estão dominando toda a cadeia produtiva do cacau ao chocolate, produzindo não só o fruto como transformando-o em chocolate, e chocolate de excelência, gourmet, inclusive com selo de procedência "Cacau do Brasil". Ganhei muitos deles para experimentar... um sacrifício! Dos chocolates abaixo, muitos ainda são desconhecidos aqui no Sudeste/ Sul. Os chocolates Sagarana por exemplo, feito com cacau do tipo Maranhão, já conseguimos encontrar em São Paulo, na loja do Chef Rafael Barros - a Ópera Ganache.

Mendoá, Cacauati, Costanegro, Maltez, Chor e Sagarana são algumas das marcas de chocolate de origem da Bahia

Os chocolates da Amma Chocolates, do Diego Badaró, já achamos no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. No Rio, o café da Tok & Stok da Barra da Tijuca também vende. Recentemente a Amma abriu um espaço que parece ser incrível, no bairro dos Jardins - e está nos planos para a próxima parada em Sampa! Experimentei cada uma dessas barras e amei todos os sabores e experiências, principalmente o de Flor do Mar. A marca criou também o "cupulate", o "chocolate" feito com cupuaçu, que na verdade não pode ser considerado chocolate porque não tem cacau, mas tem textura e sabor surpreendentes.

Embalagens apaixonantes da Amma Chocolates
Esse ano, 10 amêndoas foram selecionadas para representar o Brasil no Salon du Chocolat de Paris, sendo 8 da Bahia e 2 de Belém do Pará - onde o Festival do Cacau e Chocolate também acontece e eu sou louca pra ir!  

Voltei de Ilhéus com alegria na alma, com excesso de bagagem de tanto conhecimento adquirido e tanta amizade bacana que fiz. Acho que todo mundo que sofre da "síndrome de vira-lata", que é a tendência que muitos brasileiros têm de desvalorizar o trabalho e o produto nacionais, deveria conhecer de perto iniciativas como essas que eu pude ver em Ilhéus. Um trabalho de excelência está ganhando o mundo e a maioria dos brasileiros nem sabe que existe. Precisamos mudar isso!

* Festival do Chocolate e Cacau *
Evento anual que tem como objetivo apresentar toda a cadeia produtiva do cacau ao chocolate; divulgar produtores e fábricas da região e mostrar a qualidade dos nossos produtos para o mundo.

* Costa do Cacau *
A Costa do Cacau, no litoral sul da Bahia, é composta por diversos municípios: Ilhéus, Itabuna, Uruçuca, Itacaré, Una, Canavieiras e Santa Luzia. São quilômetros e mais quilômetros de belíssimas praias e inúmeras fazendas de cacau.
www.costadocacau.com.br


Foto tirada daqui

* Agradeço à  Lívia Cabral pelo convite para participar da Press Trip do Festival. Foi inesquecível!

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